Cartões de crédito no Canadá: o que você deve saber sobre eles

Via Montreal na Real
Por Juliana Romero











Os recém-imigrados desembarcam no Canadá, ficam impressionados com coisas que são nitidamente visíveis e expostas: limpeza (ainda que existam algumas exceções, mas em geral Montréal é limpo) é uma delas. Transporte, segurança, multiculturalismo e organização são outros itens que continuamente e majoritariamente vemos em relatos de imigrantes, porque são as primeiras coisas que vemos, sentimos e temos contato.
Passam-se os dias e é preciso aprender a morar nesta terra, conviver com os habitantes, conhecer serviços úteis e deveres e saber como sobreviver. Não vamos falar das coisas aparentes, mas de um item que para mim foi uma das boas coisas que encontrei por aqui, ao lado do acesso à internet: cartões de crédito.
Sem histórico de crédito, como você pode aplicar para um cartão de crédito?
A melhor coisa que recomendo a você é abrir uma conta em um banco no Canadá para começar a criar seu histórico no país. Quando começamos o processo de imigração, o HSBC foi a melhor opção porque existe nos dois países e a transferência de recursos era mais prática – embora não a mais barata. Hoje talvez não seja possível mais isso porque o HSBC está em processo de venda e liquidação de sua carteira de clientes pessoas físicas… Mas conseguimos abrir a conta no Brasil mais de 1 ano antes de nossa imigração, e quando desembarcamos aqui, bastou vincular a nova conta HSBC com a conta brasileira. Não há necessariamente uma transferência automática de histórico, mas ajudou na burocracia.
Conta aberta, foi hora de solicitar o cartão. No entanto, porque era nova conta e não havia emprego ou qualquer comprovação de renda dentro do Canadá, o limite do cartão é atrelado a um depósito de garantia que é congelado por 12 meses, sendo o dobro do limite do cartão. Então se você quer um limite de CAD$ 1500, tem que deixar depositado CAD$ 3000 em uma conta especial, que não pode movimentar, mas que rende um pouco mais que a poupança (1% ao ano).
Estudantes podem ter acesso a esse tipo de cartão (com depósito valendo o dobro do limite do cartão como garantia) mas é essencial que exista um SIN (Número de Seguro Social, o CPF do Canadá), e estudantes (e seus acompanhantes) podem tirar o SIN temporário (dirigindo-se a um centro do Canada Services, o Poupa-Tempo daqui), que sempre começa com o número 9 (são 9 dígitos 9xx-xxx-xxx). E atenção: podem ter acesso não significa direito. O banco ou instituição financeira pode recusar seu perfil ou cadastro baseado nas mais diversas informações.
O tempo passou e andei por 2 anos com o mesmo cartão de crédito, que nunca me cobrou anuidade ou qualquer outra taxa a não ser o que constava na tabela de preços, como por exemplo, saque em dinheiro nos caixas eletrônicos. Também não há necessidade de manter o cartão ativo para não pagar taxas por inatividade. E o que me agradou muito é que este tipo de informação é bem clara quando você aceita um cartão de crédito:
Esta carta é um exemplo quando chega o cartão em sua casa, mas ao aplicar esta mesma informação encontra-se à sua disposição, sem letras miúdas e em linguagem simples. Não concordou? Não aplique.
Há 3 coisas que você precisa saber ao aplicar para um cartão de crédito aqui no Canadá:

1

Há muitos, muitos cartões que não cobram taxa, principalmente a anuidade. Eu era acostumado a procurar por uma agulha em palheiro para encontrar um cartão nestas condições no Brasil. Basta pesquisar. Eu tenho 16 cartões (calma, não uso todos!), e não pago anuidade em nenhum deles. Bancos e contas estudantis normalmente não cobram, mas por causa de benefícios “adicionais”, já vi bancos cobrando uma taxa de anuidade de CAD$ 60, justificando que esse valor é como um seguro por compras fraudulentes… E tem bandeiras de cartão que cobram anuidade porque podem, como forma de “elitizar” seu público, como por exemplo a American Express Aeroplan:

2

Em geral, não existe “parcelamento” de compras. Quando existe, esse parcelamento é vinculado ao cartão da própria loja, como por exemplo o Canadian Tire, que oferece agora parcelamento da compra acima de CAD$ 200 em 24 vezes (você não escolhe o número de parcelas, ele já é automático e fixo).
Um fato interessante que ocorreu comigo é com relação ao cartão do Desjardins, a principal instituição financeira do Québec. Eles são responsáveis pela conta do Bureau en Gros/Staples, loja de produtos de escritório presente no Canadá e principalmente nos EUA. A loja entrou numa promoção de 12 meses sem juros, o que na minha cabeça significaria que a compra seria parcelada em 12 vezes. Não: era mesmo 12 meses sem juros, ou seja, se você comprou CAD$ 500 em 10/jan/2015, você só precisa pagar estes mesmos CAD$ 500 apenas em 9/jan/2016!
Esse mesmo tipo de prática é usada entre os cartões de entidades “menores”, instituições financeiras que não são bancos mas sim agências de crédito. Eles enviam cartas, e-mails e telefonam-lhe oferecendo a transferência do débito de um outro cartão seu para o deles, “parcelando” esse débito com juros entre 0,00 e 2,99% (o mais comum que recebo é 0,99%). Então se você está numa enrascada, com uma conta de CAD$ 1000 num cartão que lhe cobrará juros de 20% ao ano (eu repito, ao ano, não ao mês como acostumamo-nos no Brasil), ou algo em torno de CAD$ 17 pelos CAD$ 1000 sem pagar por mês, você transfere esse saldo para o cartão do concorrente, paga-se uma taxa nesta transferência que chega a ser de 2% do valor, o outro cartão é quitado, e então você usufruiu de um período no seu novo cartão onde os juros cobrados em cima do saldo serão 0,99%, ou começando com CAD$ 9,90 por mês.
A explicação ficou meio bisonha, mas o resultado é que você deixa de perder menos dinheiro (o termo “economizar” não é apropriado aqui…) com essa transação, além de que é uma prática comum chegar nessa transação do que ligar para o cartão e negociar o parcelamento do saldo devedor.

3

Há limites, e limites. Não tenho renda fixa no Canadá e, consequentemente, algumas aplicações de cartão que fiz me deram um crédito-padrão, CAD$ 500. Também não ouvi relato de ninguém pessoalmente que teve a aplicação para cartão rejeitada por mau histórico de crédito. Mas se de um lado existem cartões extremamente conservadores na análise do crédito do cliente, outros acham que o céu é o limite e você deve ter dinheiro suficiente para pagar a pavimentação até lá, como é o caso do Costco, que até 2014 trabalhava com a bandeira American Express e agora está com a Capital One/Master Card. Não tinha nem 2 anos de Canadá e tampouco ainda tinha em mãos meu cartão de Residente Permanente, mas eles me deram um inacreditável limite de CAD$ 7500. Minha esposa, também sem qualquer vínculo empregatício e até mesmo comprovação de renda, abriu uma conta no RBC por causa do estudo e de cara recebeu um cartão de crédito com limite de CAD$ 1000.
Mas já li casos de pessoas revoltadas, principalmente no Facebook, que apesar de manterem um histórico de crédito impecável no Brasil, com cartões de limites superiores a 50 mil reais, não conseguem um cartão de crédito aqui no Canadá. Talvez foi mau momento. Talvez há realmente algo no histórico de crédito da pessoa. Mas baseado em minha experiência, confesso que fico incrédulo com histórias de pessoas que não conseguem cartão, porque opções existem. Eu tive diversos recusados, alguns por motivos óbvios e outros sem mais explicações, mas reaplicando depois de vários meses foi possível para alguns.
Nota do editor: Existem alguns produtos oferecidos por bancos para os recém-chegados. O RBC até o ano passado, dava um cartão de crédito e um Ipad (?!) para imigrantes que abrissem conta com eles. O Scotia Bank tem um tipo de welcome package que te disponibiliza até $1000 logo de cara no cartão de créditos, mesmo sem que você precise abrir conta com eles. E vão te oferecendo aumento de limite a cada ano (o meu quadriplicou em dois anos). A dica é, pegue um cartão para você e outro para o cônjuge. Assim, vocês terão $2.000 no total. Já o Desjardins, não oferece cartão logo de cara, mas com o tempo ou com uma conta universitária, a coisa muda de figura. Existem outras opções que não pesquisei, mas desses acima, tenho certeza. 
Alguns últimos itens que adiciono, apesar de não considerá-los importantes, é a questão do cancelamento do cartãoestorno por compra fraudulenta e aplicação on-line. Estes casos só tive experiência por uma vez. Todas as situações foram realizadas com sucesso, o que aliás é um ponto extremamente positivo aqui: o cancelamento foi simples e rápido, sem telemarketing tentando lhe convencer do contrário. O estorno é até engraçado porque o próprio cartão te liga para saber se a compra no supermercado XYZ (localizado há mais de 2000 km da minha residência, por exemplo) é legítima… Já a aplicação on-line é tão eficiente quanto o próprio cancelamento: como seu histórico é basicamente centralizado no seu SIN, se você oferece ele no momento do cadastro, o cartão pode ser aprovado na hora. Não é uma grande novidade, ainda mais que no Brasil já existe isso há muito tempo, mas impressiona novamente a eficiência e clareza com que as informações são mostradas no momento em que concorda com o contrato, com todos os principais valores que interessam a você.
E você gosta de fazer compras nos EUA, cruzar a fronteira? Fique de olho na tal “taxa de câmbio” que os cartões tem. Alguns não cobram essa taxa (transaction fee for exchange rate), que para mim chegou a 2,5% do valor da compra, mais o câmbio entre dólar americano e dólar canadense (em geral, o dólar americano vale 25 centavos a mais que o canadense, CAD$ 1 = US$ 0,75). Mas para quem vivenciou a época da crise americana de 2008-2012, o comércio canadense tornou-se mais atrativo que  americano.
E, muito diferentemente do Brasil, a taxa de câmbio é congelada no dia em que você fez a compra. Se no dia o dólar americano está CAD$ 1,25 e você comprou US$ 100, o seu cartão irá lhe cobrar CAD$ 125. Passaram-se 15 dias e o dólar americano agora subiu para CAD$ 1,40. Não importa: aquela compra de US$ 100 continuará lhe custando CAD$ 125 até o dia em que pagar a fatura do cartão. É uma das lógicas cambiais no Brasil que desafiam milhares de brasileiros que viajam para o exterior, mas que aqui no Canadá encontrei muita tranquilidade ao saber que a fatura chegará e você conhece exatamente o valor que pagou, e não pelo “câmbio do dia”, o que lá seja isso.
E no fim, a mesma regra que utiliza-se no Brasil deve ser aplicada no Canadá: use sabiamente seu cartão de crédito. O fato de que a economia daqui não é tão suscetível ao parcelamento ajuda no controle de gastos, porque você não protela a dívida adiante.
Por enquanto, em 6 anos de Canadá, o uso do cartão de crédito tem sido excelente, tranquilo, sem incidentes e com algumas ótimas vantagens como “annual cash back”, um retorno de 1 a 2% de todas suas compras efetuadas em dinheiro creditado em seu cartão. La Baie, por exemplo, oferece desconto adicional de 15% no total da compra se for usado o cartão de crédito deles. E a extensa lista continua… Existem muitos benefícios ocultos e mal explorados, além de diversas promoções “imperdíveis” que perco diariamente, mas em questão de custo-benefício, ele é um forte aliado do imigrante.
Fonte: Montreal na Real | www.montrealnareal.com
Por Juliana Romero
Postado por Interapoio | www.interapoio.com.br


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